Experimento em manguezal no litoral sul de São Paulo mostra que o calor pode alterar a decomposição da matéria orgânica mesmo em áreas pouco perturbadas
Resultado não elimina o papel dos manguezais como grandes estoques de carbono, mas reforça que o balanço climático desses ecossistemas depende também da resposta microbiana do solo
Se os manguezais armazenam muito carbono, por que o aquecimento pode aumentar a emissão de metano? A resposta está no funcionamento do solo. Em ambientes alagados e pobres em oxigênio, a matéria orgânica se decompõe lentamente e isso favorece o acúmulo de carbono ao longo do tempo. Mas, quando a temperatura sobe, a atividade microbiana acelera, o oxigênio disponível é consumido mais rapidamente e as rotas de decomposição podem mudar, abrindo mais espaço para a produção de metano. Foi esse deslocamento que um experimento relatado pela Universidade de São Paulo observou em solos de manguezais preservados.
O que a USP divulgou e o que já saiu em artigo científico
A divulgação institucional foi publicada pelo Jornal da USP em 1º de outubro de 2026. Já o estudo científico citado nessa divulgação apareceu como artigo disponível online em 21 de agosto de 2026, na revista Atmospheric Environment, com o título em inglês sobre alterações nas interações entre ferro e carbono e nas emissões de CO2 e CH4 em solos pristinos de manguezal. A diferença entre as duas datas importa: a primeira marca a comunicação ao público; a segunda, a circulação do trabalho em periódico científico.
Segundo a USP, o experimento foi realizado na Ilha Pai Matos, no sistema costeiro Cananéia-Iguape, no litoral sul paulista, descrito como um dos complexos estuarinos mais preservados do país. Para simular aquecimento, a equipe instalou câmaras sobre trechos de solo que mantiveram temperaturas entre 7 e 12 graus Celsius acima das condições ambientais, monitorando ao longo do período mudanças físico-químicas e os fluxos de dióxido de carbono e metano.
A dupla face climática do manguezal
O dado que mais chama atenção é a combinação entre queda nas emissões de CO2 e aumento nas emissões de CH4 sob aquecimento experimental. De acordo com o Jornal da USP, o dióxido de carbono caiu cerca de 73% no primeiro período de aquecimento, enquanto o metano avançou progressivamente até ficar aproximadamente 6,4 vezes acima da condição inicial após seis meses. Isso não significa que o manguezal deixou, por definição, de ser um aliado climático. Significa que uma parte do benefício climático pode ser pressionada quando o calor altera o modo como o carbono do solo é transformado e liberado.
Esse ponto exige cuidado porque metano e dióxido de carbono não têm o mesmo efeito no aquecimento. A própria divulgação da USP ressalta que o CH4 retém mais calor na atmosfera do que o CO2 em horizontes mais curtos. Ainda assim, o estudo não autoriza a conclusão de que manguezais tenham se tornado, como categoria geral, uma fonte líquida de aquecimento. Para afirmar isso seria necessário um balanço completo de gases, estoques de carbono e tempo de resposta do ecossistema, algo que vai além do resultado experimental descrito agora.
Por que isso importa para o Brasil
No debate climático brasileiro, manguezais costumam aparecer como peça-chave do chamado carbono azul, justamente por sua capacidade de armazenar carbono no solo por longos períodos. O novo resultado não derruba essa importância. O que ele faz é complicar uma visão simplificada segundo a qual preservar o mangue, por si só, bastaria para manter inalterado seu papel climático em um planeta mais quente. Se o aquecimento modifica os processos microbianos mesmo em solos pouco perturbados, políticas de conservação e restauração passam a depender também de monitoramento mais fino do funcionamento do solo, e não apenas da cobertura vegetal.
Há ainda um efeito prático para a pesquisa. A própria equipe da USP informou, em outro trabalho mencionado na divulgação, que o solo de manguezal segue sub-representado na literatura sobre mitigação climática. Nesse levantamento bibliométrico, feito com a base Scopus e cobrindo publicações entre 1950 e 2025, só 25 de 30.084 artigos encontrados sobre manguezais ligavam explicitamente solos de manguezal à mitigação da mudança do clima. O número ajuda a explicar por que resultados sobre o solo ainda chegam ao debate público com atraso em relação aos estudos sobre biomassa e vegetação.
O que o estudo muda — e o que ainda não prova
O avanço real do estudo está em mostrar, com experimento controlado, que a sensibilidade térmica do solo pode deslocar o regime de emissões mesmo em manguezais preservados. Isso reforça a necessidade de incluir processos biogeoquímicos do solo nas contas climáticas desses ecossistemas. Mas ainda há limites claros: trata-se da resposta observada em um experimento localizado, com aquecimento artificial e horizonte temporal específico. Os próprios pesquisadores, segundo o Jornal da USP, afirmam que não é possível concluir se a mudança será permanente nem se ocorrerá da mesma forma em todos os manguezais.
Em outras palavras, a nova evidência não transforma o manguezal de herói climático em vilão. Ela mostra algo mais útil para o debate público: que ecossistemas essenciais para armazenar carbono também têm vulnerabilidades internas, e que o aquecimento global pode agir justamente sobre essas engrenagens menos visíveis. Para o Brasil, que reúne extensas áreas costeiras e depende cada vez mais de métricas sólidas para conservação e clima, essa diferença entre estoque de carbono e balanço efetivo de gases deixa de ser detalhe técnico e passa a ser uma questão central.
